Atos dos Apóstolos (Círculo Bíblico – 2/10)

Círculo Bíblico: Atos dos Apóstolos – Encontro 2/10

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São Pedro ou Santo Simão como é conhecido na Igreja Ortodoxa

Este é o segundo de uma série de 10 posts que tratarão de um Círculo Bíblico sobre o livro dos Atos dos Apóstolos. A ideia é fazer encontros com a comunidade ou grupos interessados no estudo da Bíblia (dentro ou fora da igreja) e não uma palestra onde um fala e os outros ouvem, mas sim uma partilha numa conversa, mais como uma vivência da fé do que apenas um sermão. Para isso é importante que todos tenham nas mãos a Bíblia e caso contrário, ao menos o livro dos Atos dos Apóstolos (editoras como a Paulus tem edições mais acessíveis apenas com os livros separados da Bíblia como um todo) ou em ultimo caso um folheto impresso com os capítulos que serão lidos. De qualquer forma o ambiente é muito importante e mais ainda que sejam respeitados horários, dias e frequências com que os encontros acontecerão. Funciona muito bem se for uma vez por semana, mas a demanda dos participantes deve ser levada em consideração. Grupos com até 20 pessoas são mais interessantes do que grandes grupos, para que o trabalho seja mais próximo, mas não impede que sejam formados grupos bem maiores. É indispensável que tenha-se ao menos uma equipe (podem ser 2 ou 3 pessoas) para preparar o espaço (decoração, café ou suco ou lanche se for o caso) e tentar fazer estes encontros na igreja e ainda melhor se for nas casas das pessoas. Exemplo: Hoje é na casa do João, no próximo encontro o grupo vai na casa da Maria e assim por diante, assim já se cria um ambiente mais amigável e familiar abrindo a possibilidade da família acolhedora partilhar. Não posso esquecer de frisar que os encontros devem durar até 50 minutos (1 hora no máximo), encontros muito longos não são proveitosos, se tornam cansativos e desestimulam a participação no restante do círculo. Entregar um certificado no final é uma boa ideia.

Cronograma

  1. Oração Inicial
  2. Canto
  3. Leitura (dividir em partes para que todos que se sentirem a vontade possam ler)
  4. Junto com cada parte lida cabe a discussão sobre o que foi lido
  5. Plenária (o que cada um entendeu)
  6. Fechamento com uma oração e o abraço da paz (um canto também é interessante)

 

Quais são os pilares da comunidade nos tempos dos Atos dos apóstolos?

At 2,22-36 Querigma

Querigma numa tradução literal seria O Primeiro Anúncio, mas já na comunidade crescente e que se estruturava nos relatos do livro dos Atos é o primeiro anúncio oficial vindo da figura mais importante do cristianismo depois do próprio Cristo. O discípulo chefe de toda a igreja, Simão Pedro (Kefas). É a primeira vez depois da ascensão de Cristo que Pedro toma a palavra e é ouvido.

Neste trecho do livro podemos considerar como a essência do cristianismo pois explica a vida, a palavra e as ações dos cristãos. Uma multidão cercava os então chamados nazarenos  (seguidores do Nazareno Jesus) para ouvir algo e Pedro, líder deixado pelo próprio Jesus dirige-se a todo o povo de Israel  (simbolizado pela multidão) e relembra os últimos acontecimentos : “Israelitas, ouvi estas palavras: Jesus de Nazaré, homem de quem Deus tem dado testemunho diante de vós com milagres, prodígios e sinais que Deus por ele realizou no meio de vós como vós mesmos o sabeis, depois de ter sido entregue, segundo determinado desígnio e presciência de Deus, vós o matastes, crucificando-o por mãos de ímpios. Mas Deus o ressuscitou, rompendo os grilhões da morte, porque não era possível que ela o retivesse em seu poder.” (Atos dos Apóstolos, 2, 22-24 – Bíblia Católica Online)

As palavras de Pedro queriam mostrar que Jesus era inocente e justo, que Deus estava com ele, falando através de sua palavra e agindo através de sua ação. A maior prova foram os prodígios realizados por Jesus, sinais de que o Reino de Deus libertava o povo e levando-o a vida. Porém esse mesmo Jesus foi morto.

Porquê ?

Porque os dirigentes do Povo na época  (Romanos e o Sinédrio) nunca tiveram interesse na libertação e na vida do povo, muito menos que o povo tivesse acesso ao conhecimento. Se isso acontecesse eles iriam perder as mordomias e privilégios conseguidos e sustentados graças à exploração e opressão do povo.

Isso te lembra algo? Basta compararmos com o que acontece hoje em dia com a classe política e muitos ricos que oprimem o povo.

Jesus falhou?

Não! Mais uma vez foram às pessoas que se afastaram dos ensinamentos do Mestre.

A morte de Jesus foi acima de tudo uma morte política. Havia razões políticas e econômicas, acobertadas ideologicamente pela religião. Ele era um perigo para o sistema. Seu anúncio de verdade e de justiça,  fraternidade e partilha, ameaçava os poucos que concentravam o poder (na época os ricos sacerdotes do Sinedrio, a corte do rei Herodes e Roma como potência dominadora). Por incrível que pareça Jesus foi condenado em nome da religião. O Evangelho Segundo João 19,7 traz isso claramente : “Responderam-lhe os judeus: Nós temos uma lei, e segundo essa lei ele deve morrer, porque se declarou Filho de Deus.” Tudo influenciado pelos membros do Sinédrio que agitaram o povo. O que todos não contavam era que Jesus fosse realmente o Messias e ressuscitasse no terceiro dia. O que era encarado apenas como bravata se tornou verdade.

Comunhão fraterna – At 2,42-45

“42.Perseveravam eles na doutrina dos apóstolos, na reunião em comum, na fração do pão e nas orações. 43.De todos eles se apoderou o temor, pois pelos apóstolos foram feitos também muitos prodígios e milagres em Jerusalém e o temor estava em todos os corações. 44.Todos os fiéis viviam unidos e tinham tudo em comum. 45.Vendiam as suas propriedades e os seus bens, e dividiam-nos por todos, segundo a necessidade de cada um.” 

As primeiras comunidades eram sempre fraternas e viviam sempre em comunhão total entre si. Mas o ponto principal talvez seja a palavra perseverança . A comunidade persevera (continua, não desiste) no empenho e no compromisso assumido quando foram convertidos. Esse é um ponto para se refletir mais profundamente.

Fração do pão (Missa) – At 2,46-47

“46.Unidos de coração frequentavam todos os dias o templo. Partiam o pão nas casas e tomavam a comida com alegria e singeleza de coração, 47.louvando a Deus e cativando a simpatia de todo o povo. E o Senhor cada dia lhes ajuntava outros que estavam a caminho da salvação.” 
Ainda era uma comunidade enraizada no judaísmo, mas que não deixava de seguir o pedido de Cristo de partir o pão e celebrar em memória dele. Mas o número de seguidores ia aumentando praticamente todos os dias e logo a comunidade iria ter uma identidade própria e se separar da religião judaica. Partir o pão é a atualização do gesto de Jesus evidenciado na última ceia (At 20, 7; 1Cor 10,16;11,25). A Eucaristia era celebrada nas casas como parte de uma refeição em comunidade, sem a pompa dos templos, lembrando que muitas vezes esses atos eram feitos em certo segredo pois os cristãos eram alvos de perseguição. Mas o que fica é a alegria , característica da salvação oferecida por Jesus (Lc 1,14.44)

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Em nome de Cristo – At 3,1-26

Aqui Lucas vai começara narrar algo que continua no capítulo 4. Inicia-se com um acontecimento narrado na cura de um coxo (3,1-10), a reação do povo que aprova (3,11-26), o revide das autoridades  (4,1-22) e o fechamento com a reação de uma comunidade perseguida  (4,23-31)

Tanto Pedro quanto João continuavam a frequentar o templo e cumpriam sua orações como sempre fizeram, afinal eles ainda eram judeus. E numa destas idas um homem os aborda na porta do lugar pedindo esmola, “Pedro, porém, disse: Não tenho nem ouro nem prata, mas o que tenho eu te dou: em nome de Jesus Cristo Nazareno, levanta-te e anda!” (At 3, 6) e o homem foi curado, para espanto das pessoas que cercaram os discípulos. Mais uma vez Pedro discursa falando da condenação de Cristo e de como foi um erro cometido contra o Filho de Deus: “13.O Deus de Abraão, de Isaac, de Jacó, o Deus de nossos pais glorificou seu servo Jesus, que vós entregastes e negastes perante Pilatos, quando este resolvera soltá-lo. 14.Mas vós renegastes o Santo e o Justo e pedistes que se vos desse um homicida. 15.Matastes o Príncipe da vida, mas Deus o ressuscitou dentre os mortos: disso nós somos testemunhas.”  (At 3, 13-19). O discurso de Pedro inflamou o lugar e deixou muitos descontentes, porém muitos acabaram se convertendo ao cristianismo.

At 4, 1-7

Já no inicio do capitulo mostra que ainda dentro do templo Pedro e João foram presos, mas a comunidade cada vez maior de nazarenos elevou-se a mais de cinco mil. A ousadia dos dois discípulos de terem curado o deficiente de nascença às portas do Templo foi demais. Eles curaram em nome de Jesus e o templo era a sede dos mesmos “poderes ” que haviam condenado o Filho de Deus a morte. Como então o Sinédrio poderia deixar passar tal “afronta”? Se isso fosse feito eles admitiriam que o poder do homem de Nazaré era maior do que o deles.

” 1.Enquanto eles falavam ao povo, vieram os sacerdotes, o chefe do templo e os saduceus, 2.contrariados porque ensinavam ao povo e anunciavam, na pessoa de Jesus, a ressurreição dos mortos. 3.Prenderam-nos e os meteram no cárcere até o outro dia, pois já era tarde. 4.Muitos, porém, dos que tinham ouvido a pregação creram; e o número dos fiéis elevou-se a mais ou menos cinco mil” 
Atos dos Apóstolos, 4, 1- 4 – Bíblia Católica Online

Perseverança nos ensinamentos de Jesus – At 4,8-13

Pedro e João não temem e não recuam em suas ações. Eles são interrogados mas estão na certeza de que o Espírito estaria respondendo quando os apóstolos estivessem num tribunal. Assim havia dito Jesus  (Lc 12,11-12). Mesmo sendo pressionados eles aproveitam para acusar as autoridades e ainda a anunciar o evangelho ao povo.  Pedro não pede a conversão das autoridades do Sinédrio o seu anúncio é dirigido sobretudo ao povo.

Seguem-se vários pontos interessantes se fracionarmos a leitura e usarmos como chaves de leitura : 1. Mesmo por trás do poder existe a fraqueza  (4,14-17), 2. Obedecer a Deus apenas (4,18-22)

4,23- 31 Oração e a força da comunidade

A comunidade é a parte mais importante de toda essa narrativa. As autoridades sempre tiveram medo do povo. Se todos (até hoje) percebessem isso poderiam mudar o mundo. A comunidade nos tempos dos Atos percebe isso ão verem Pedro e João serem libertados  mesmo sem terem se curvado, mesmo sendo gente simples do meio do povo mesmo. Quando os apóstolos contam o que se passou a comunidade percebe que os poderosos não estão interessados no bem do povo. E abraçam a fé em Jesus Cristo com mais afinco.

Milton Cesar

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Refletindo 

Estes pilares deveriam ser os pilares de todas as comunidades atuais. Mas o que vemos é uma divergência enorme entre o que as comunidades cristãs deveriam ser e o que fazem, principalmente em relação a comunhão fraterna e a perseverança nos ensinamentos de Jesus. A força da mensagem de Jesus tem sido constantemente distorcida em favor de interesses de quem, hoje, se arvora mensageiro da verdade. São muitas teologias de prosperidade e riqueza e nenhuma para seguir o exemplo máximo do Senhor Jesus utilizado nas comunidades nascidas logo após a ascensão de Jesus e relatadas nos Atos dos Apóstolos. O exemplo de uma comunidade fraternal que dividia tudo para que todos fossem iguais,  cedeu lugar hoje em dia a teologias que pregam em nome de Jesus que quem não conseguir a riqueza é fraco na oração ou não é amado de Deus. Salvo algumas exceções , o que vejo são denominações ditas religiosas que mais se assemelham ao estilo do Sinédrio que condenou Jesus do que as comunidades que ele deixou. Ou alguém viu escrito nos relatos do livro dos Atos que São Pedro, São Paulo, São Marcos ou São Lucas ou de qualquer outro discípulo ou apóstolos enriquecendo às custas dos fiéis?

O livro dos Atos  é por excelência o livro do Espírito Santo, as ações se iniciam em sua grande maioria a partir do espírito santo, e ele é citado nominalmente 58 vezes durante o livro. Por isso uma comunidade sem o Espírito Santo é vazia.

Milton Cesar

São Pedro

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Discípulo de Jesus nascido em Betsaida, Galiléia, conhecido como o Príncipe dos Apóstolos e tido como primeiro chefe da Igreja Cristã em Roma e considerado pela Igreja Católica como seu primeiro Papa. As principais fontes de informação sobre sua vida são os quatro Evangelhos ( MateusMarcosLucas eJoão), onde aparece com destaque em todas as narrativas evangélicas, os Atos dos Apóstolos, as epístolas de Paulo e as duas epístolas do próprio apóstolo. Filho de Jonas e irmão do apóstolo André, seu nome original era Simão e na época de seu encontro com Cristo morava em Cafarnaum, com a família da mulher (Lc 4,38-39). Não se sabe contudo se naquele período ele estava casado, ou já era viúvo.

Pescador, tal como os apóstolos Tiago e João, trabalhava com o irmão e o pai e foi apresentado a Jesus por seu irmão, em Betânia, onde tinha ido conhecer o Cristo, por indicação de João Batista. No primeiro encontro Jesus o chamou de Cefas, que significava pedra, em aramaico, determinando, assim, ser ele o apóstolo escolhido para liderar os primeiros propagadores da fé cristã pelo mundo. Jesus, além de mudar-lhe o nome, o escolheu como chefe da cristandade aqui na terra: “E eu te digo: Tu és pedra e sobre esta pedra edificarei a minha igreja, e as portas do inferno não prevalecerão contra ela. E eu te darei as chaves do reino dos céus; e tudo o que ligares sobre a terra, será ligado também nos céus” (Mt 16, 18-19).

Convertido, despontou como líder dos doze apóstolos, foi o primeiro a perceber em Jesus o filho de Deus. Junto com seu irmão e os irmãos Tiago e João Evangelista, fez parte do círculo íntimo de Jesus entre os doze, participando dos mais importante milagres do Mestre sobre a terra. Teve, também, seus momentos controvertidos, como quando usou a espada para defender Jesus e na passagem da tripla negação, e de consagração, pois foi a ele que Cristo apareceu pela primeira vez depois de ressuscitar. Após a Ascensão, presidiu a assembléia dos apóstolos que escolheu Matias para substituir Judas Iscariotes, fez seu primeiro sermão no dia de Pentecostes e peregrinou por várias cidades.

Fundou as linhas apostólicas de Antioquia e Síria (as mais antigas sucessões do Cristianismo, precedendo as de Roma em vários anos) que sobrevivem em várias ortodoxias Sírias. Encontrou-se com São Paulo, ou Paulo de Tarso, em Jerusalém, e apoiou a iniciativa deste, de incluir os não judeus na fé cristã, sem obrigá-los a participarem dos rituais de iniciação judaica. Após esse encontro, foi preso por ordem do rei Agripa I, encaminhado à Roma durante o reinado de Nero, onde passou a viver. Ali fundou e presidiu à comunidade cristã, base da Igreja Católica Romana, e, por isso, segundo a tradição, foi executado por ordem de Nero.

Conta-se, também, que pediu para ser crucificado de cabeça para baixo, por se julgar indigno de morrer na mesma posição de Cristo. Seu túmulo se encontra sob a catedral de S. Pedro, no Vaticano, e é autenticado por muitos historiadores. É festejado no dia 29 de junho. (Fonte Canção Nova )

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Este circulo bíblico foi feito na comunidade Santo Antonio de Santana Galvão  (Paróquia São Marcos, O Evangelista) no bairro do CDHU-San Martins em Campinas-SP, no ano de 2007 e foi atualizado em 2012 e 2017. É um círculo bíblico escrito e feito por mim, e esta é a versão inédita e atualizada. Espero que seja útil, e conto com seus comentários para a melhoria do texto.

Como base de estudo foi usado:

  • Bíblia do Peregrino- Paulus
  • Bíblia de Jerusalém – Paulus
  • Bíblia da CNBB
  • Livro: Como ler os Atos dos Apóstolos- O caminho do Evangelho- Ivo Storniolo -Paulus Editora
  • Bíblia Católica Online (nos links)