Atos dos Apóstolos (Círculo Bíblico – 4/10)

Círculo Bíblico: Atos dos Apóstolos – Encontro 4/10

Este é o quarto de uma série de 10 posts que tratarão de um Círculo Bíblico sobre o livro dos Atos dos Apóstolos. A ideia é fazer encontros com a comunidade ou grupos interessados no estudo da Bíblia (dentro ou fora da igreja) e não uma palestra onde um fala e os outros ouvem, mas sim uma partilha numa conversa, mais como uma vivência da fé do que apenas um sermão. Para isso é importante que todos tenham nas mãos a Bíblia e caso contrário, ao menos o livro dos Atos dos Apóstolos (editoras como a Paulus tem edições mais acessíveis apenas com os livros separados da Bíblia como um todo) ou em ultimo caso um folheto impresso com os capítulos que serão lidos. De qualquer forma o ambiente é muito importante e mais ainda que sejam respeitados horários, dias e frequências com que os encontros acontecerão. Funciona muito bem se for uma vez por semana, mas a demanda dos participantes deve ser levada em consideração. Grupos com até 20 pessoas são mais interessantes do que grandes grupos, para que o trabalho seja mais próximo, mas não impede que sejam formados grupos bem maiores. É indispensável que tenha-se ao menos uma equipe (podem ser 2 ou 3 pessoas) para preparar o espaço (decoração, café ou suco ou lanche se for o caso) e tentar fazer estes encontros na igreja e ainda melhor se for nas casas das pessoas. Exemplo: Hoje é na casa do João, no próximo encontro o grupo vai na casa da Maria e assim por diante, assim já se cria um ambiente mais amigável e familiar abrindo a possibilidade da família acolhedora partilhar. Não posso esquecer de frisar que os encontros devem durar até 50 minutos (1 hora no máximo), encontros muito longos não são proveitosos, se tornam cansativos e desestimulam a participação no restante do círculo. Entregar um certificado no final é uma boa ideia.

Cronograma

  1. Oração Inicial
  2. Canto
  3. Leitura (dividir em partes para que todos que se sentirem a vontade possam ler)
  4. Junto com cada parte lida cabe a discussão sobre o que foi lido
  5. Plenária (o que cada um entendeu)
  6. Fechamento com uma oração e o abraço da paz (um canto também é interessante)

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Não existe fiel não praticante, ou é ou não é

At 9, 1-30

O circulo bíblico é uma reflexão que nos instiga a ler a Bíblia com uma visão aberta e conhecimentos de pormenores que não dispensam a leitura orante da palavra, mas ajuda em alguns quesitos para que se entenda e se possa transmitir este entendimento de uma maneira eficaz.

Pois bem. Chegamos a um capitulo quase que central dos Atos, aqui veremos o que acontece com Saulo, o próprio vai descrever estes fatos em suas epístolas Gl 1,11-16; 1Cor 15,8-10; Fl 3,6-12, mas nota-se que o relato dele difere em muitos pontos do relato de Lucas em At 9, o que não deixa de ser óbvio pelo fato de Lucas ter ouvido falar e ele ter vivido a experiência. Vale a pena ler este capitulo e depois lermos as cartas citadas, vale como aprendizado, deveras valioso. Como acontece até hoje, quem conta aumenta um ponto.

Saulo deveria ter 28 anos quando trabalhava como perseguidor dos  cristãos. Era considerado pelo Sinédrio , pois perseguia cristãos bem distante de Jerusalém. Damasco ficava 220 Km de Jerusalém.

“Durante a viagem, estando já perto de Damasco, subitamente o cercou uma luz resplandecente vinda do céu. 4.Caindo por terra, ouviu uma voz que lhe dizia: Saulo, Saulo, por que me persegues? 5.Saulo disse: Quem és, Senhor? Respondeu ele: Eu sou Jesus, a quem tu persegues. [Duro te é recalcitrar contra o aguilhão. 6.Então, trêmulo e atônito, disse ele: Senhor, que queres que eu faça? Respondeu-lhe o Senhor:] Levanta-te, entra na cidade. Aí te será dito o que deves fazer. 7.Os homens que o acompanhavam enchiam-se de espanto, pois ouviam perfeitamente a voz, mas não viam ninguém. 8.Saulo levantou-se do chão. Abrindo, porém, os olhos, não via nada. Tomaram-no pela mão e o introduziram em Damasco, 9.onde esteve três dias sem ver, sem comer nem beber.” (Atos dos Apóstolos, 9, 3-9 – Bíblia Católica Online)
No relato de Lucas, Saulo é atingido por uma luz. Mas que luz seria essa? Podemos especular que seria uma percepção interior, pois os outros que o acompanhavam não viram nada. Porém há o detalhe destes acompanhantes ouvirem a voz, mas não verem a luz. Teria sido apenas Saulo convertido? O texto não revela isso, porém mostra que tão logo Saulo volta a enxergar e os judeus do Sinédrio descobrem que ele mudou de lado, a primeira ação é tentar mata-lo.

Saulo fica cego ao entrar me contato com a luz de Jesus Cristo. Castigo? Não. Aquilo que ele enxergava antes (o ódio aos cristãos) tornou-se escuridão, que só vai voltar a se tornar clara (voltar a enxergar) de novo quando entrar em contato com a comunidade de fé em Jesus através da intervenção de Ananias e por ele ser acolhido como um irmão (At 9,17). Seguindo o ensinamento de Cristo de perdoar 70 vezes 7, Saulo foi perdoado.

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Durante 3 dias Saulo ficou cego, e não comeu nem bebeu nada. depois deste tempo chegou Ananias um apóstolo importante em Damasco e veio conversar com ele, impõe-lhe as mãos e curá-lo. Saulo converteu-se e foi batizado, provavelmente seus companheiros também, apesar de não haver o relato. Lucas aqui como  bom escritor que era faz um paralelo entre a cegueira de Saulo ( 3 dias sem ver a luz) e a morte de Jesus (3 dias até a ressurreição). Saulo fica 3 dias para ver a luz e ter uma vida nova, assim como Cristo.

Sai da condição de um dos maiores perseguidores de cristãos para ser no futuro próximo um dos maiores apóstolos de Cristo. Quem fez sofrer, agora sofrerá por causa do nome de Jesus. E isso lembra da radicalidade da fé. Deus não gosta de meia fé ou de jeitinhos ou gente em cima do muro (não existe o católico não praticante, ou é ou não é). Deus faz grandes transformações e não mudanças de discursos. Saulo sim pode dizer que encontrou Jesus, pois ele estava sem fé e perseguia os que tinham fé e acabou convertido de verdade. Não trocou uma sigla, mudou totalmente de vida.

Lucas narra o encontro de Paulo com Pedro e Tiago (At 9, 26-30), existe uma divergência entre o relato de Lucas neste trecho dos Atos e o do próprio Paulo em Gl 1, 16-24 que dá como data deste encontro quase três anos de diferença (não podemos esquecer que de Damasco a Jerusalém são mais de 220 km de distância e Paulo era procurado na Cidade Santa). Mas é claro que Lucas não escreve um relato histórico, mas sim um livro que tem a intenção de mostrar como a comunidade era unida.

A comunidade de Jerusalém reage como reagiu a de Damasco no inicio da conversão de Saulo, eles tem medo e desconfiança, mas com a intervenção de Barnabé contando como Paulo pregara em Damasco, faz com que o aceitem. Mesmo assim os helenistas ainda desconfiados querem matá-lo, e por isso ele parte para sua cidade natal Tarso depois de passar por Cesaréia.

As contradições entre as declarações de Lucas, e o que Paulo vai escrever em algumas de suas cartas, são interessantes, mas não ao ponto de desqualificar o texto dos Atos.

O que há de mais importante na leitura orante dos Atos dos Apóstolos, é o fato de que as comunidades primitivas enfrentavam problemas como as comunidades cristãs atuais. Desde as opiniões diferentes quanto a questões de interpretação da mensagem de Jesus. Assim como naquela época temos os que fazem muito, e outros que não se importam tanto, assim como inveja de uns poucos das figuras de destaque.

No final do capitulo (At 9,31-43), temos algumas ações de Pedro, e a constatação de que ele ficava circulando de cidade em cidade. Lucas descreve a cura de um paralítico em Lida e a ressurreição de uma mulher chamada Tabita, em Jope (cidade próxima de Lida) .

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At 10, 1- 48

No inicio deste capitulo vemos a narrativa de um centurião, já temente a Deus que acaba se encontrando com Pedro depois de um sonho premonitório, talvez seja a primeira vez que um convertido ( exceto o etíope) era estrangeiro e seria convertido logo por Pedro, que tinha sérias restrições aos não judeus. Pedro tem que comer na casa deste homem, e pela lei judaica (ainda não abandonada por Pedro), muitas comidas eram proibidas. Dentro deste capitulo temos que destacar os versículos 14-16 que mostram Pedro sendo questionado 3 vezes, assim como ele foi no julgamento de Jesus, e ele resistindo mais uma vez. Logo depois Pedro percebe que Deus não faz distinções entre as pessoas. (At 10, 34-36)

Aqui com certeza nasce o cristianismo que seria aberto a todos os povos do mundo. Se Paulo seria o maior divulgador do cristianismo, coube a Pedro ser o 1° a aceitar outros povos na nova religião. Em Jope, onde Pedro se localizava, todo o povo percebeu que ele estava na casa de um “pagão” .

Deus com certeza escolheu Pedro para converter alguém que não era hebreu-judeu, por ele ser o que mais tinha resistências a conversão do povo pagão.

“Estando Pedro ainda a falar, o Espírito Santo desceu sobre todos os que ouviam a (santa) palavra. 45.Os fiéis da circuncisão, que tinham vindo com Pedro, profundamente se admiraram, vendo que o dom do Espírito Santo era derramado também sobre os pagãos; 46.pois eles os ouviam falar em outras línguas e glorificar a Deus. 47.Então Pedro tomou a palavra: Porventura pode-se negar a água do batismo a estes que receberam o Espírito Santo como nós? 48.E mandou que fossem batizados em nome de Jesus Cristo. Rogaram-lhe então que ficasse com eles por alguns dias.” (Atos dos Apóstolos, 10, 45 – 48 – Bíblia Católica Online)
No versículo 45 vemos Lucas afirmar nas palavras de Pedro que o Espírito Santo é para todos, sem nenhuma distinção. Engraçado vemos este tipo de afirmação, e analisarmos o comportamento de muitas comunidades que ainda impõe a cada membro modos de agir e limites. Alguns são impedidos de trabalharem onde queiram, por certas convenções. Não quero dizer que cada um pode fazer o que quer, já que a igreja segue algumas normas importantes.

At 11, 1-30

Neste capitulo vemos as discussões em relação a conversão de Cornélio, basicamente este capitulo trata deste tema.

A conversão dos pagãos colocava em cheque uma questão que os cristãos da comunidade dos Atos ainda não haviam entendido:

“Basta converter-se a Boa Nova de Jesus e comprometer-se com ele ou primeiro seria necessário converter-se ao judaísmo e observar sua práticas?

São questões colocadas pelos que já eram judeus e encontravam uma nova fé em Jesus, porém ainda não tinham claro que era preciso escolher um lado e acolher os demais, mesmo os chamados pagãos (que não eram judeus).

Pedro volta  para Jerusalém e encontra a comunidade em alvoroço, cheia de questionamentos. Até então todos os convertidos eram de origem judaica (hebreus, gregos, a conversão de Cornélio e sua família é um fato novo. Os judeus-cristãos (se é que podemos chamar assim) não entendiam que não precisavam mais seguir duas religiões e sim só uma, mas questionaram pedro por ele ter quebrado  a lei judaica duas vezes ao entrar na casa de incircuncisos e comer com eles, eles achavam que perderiam a identidade por terem que conviver com pagãos, comer com eles, participar do mesmo teto, celebrar a partilha do pão (Eucaristia). O episódio das viúvas parecia não ter servido de aprendizado e até os antes discriminados , agora discriminavam.

Seria preciso fundar duas comunidades diferentes? A igreja dos judeus-cristãos, que seria uma igreja de primeira classe e com observância estrita da lei judaica e cristã e uma igreja pagã-cristã, que seria de segunda classe e mais livre para a entrada de “qualquer pessoa”. Esse era o desejo de Jesus?

Se levarmos em consideração esta reflexão podemos encaixar isso hoje em muitas comunidades e igrejas, onde os novos fiéis são relegados ao segundo plano por uma divisão de classes de quem já estava antes da chegada dos novos membros. É aquela questão de acharem-se donos da igreja. Eu tenho medo de quem quer dar ordens a Jesus.

Pedro não dá explicações. Relato o que aconteceu e de como toda as suas ações foram tomadas por Deus, desde a sua visão (11,5-10; 10, 11-20), o encontro com os enviados de Cornélio (11,13-14; 10, 17-24), a visão de Cornélio (11-13-14 ;10, 3-8) e a catequese com a ação do Espírito Santo entre os pagãos (11, 15-17 ;10, 34-48). Parece apenas a repetição do capitulo 10 porém tem muitos detalhes a serem levados em conta. Pedro então dá o motivo de sua liderança ao intervir na discussão: “Ele (Pedro) te dirá as palavras pelas quais serás salvo tu e toda a tua casa. 15.Apenas comecei a falar, quando desceu o Espírito Santo sobre eles, como no princípio descera também sobre nós. 16.Lembrei-me então das palavras do Senhor, quando disse: João batizou em água, mas vós sereis batizados no Espírito Santo. 17.Pois, se Deus lhes deu a mesma graça que a nós, que cremos no Senhor Jesus Cristo, com que direito me oporia eu a Deus?”(Atos dos Apóstolos, 11, 14-17– Bíblia Católica Online)
Em palavras mais simples: Se a decisão foi de Deus, o que o homem pode fazer?

É justamente neste ponto que a comunidade começa a compreender que a vontade de Deus é para que todos sejam agraciados com a luz do Evangelho

At 11, 19-30

Chega-se a um ponto no capitulo onde logo após a confirmação de Pedro, os até então nazarenos começam a pregar a Boa Nova de Jesus a todos os povos. Lucas fala de Saulo novamente numa breve citação e no versículo 26 fala que foi a primeira vez que os judeus convertidos e todos os novos seguidores de Cristo passam a serem chamados de cristãos e isso acontece na comunidade de Antioquia, durante um ano de intensa pregação. Saulo e Barnabé saem em missão ao final do capitulo.

“Durante um ano inteiro eles tomaram parte nas reuniões da comunidade e instruíram grande multidão, de maneira que em Antioquia é que os discípulos, pela primeira vez, foram chamados pelo nome de cristãos. 27.Por aqueles dias desceram alguns profetas de Jerusalém a Antioquia. 28.Um deles, chamado Ágabo, levantou-se e deu a entender pelo Espírito que haveria uma grande fome em toda a terra. Esta, com efeito, veio no reinado de Cláudio. 29.Os discípulos resolveram, cada um conforme as suas posses, enviar socorro aos irmãos da Judéia. 30.Assim o fizeram e o enviaram aos anciãos por intermédio de Barnabé e Saulo.”
(Atos dos Apóstolos, 11,26-30 – Bíblia Católica Online)

Milton Cesar

Refletindo

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São Paulo

 

A leitura da Bíblia num Círculo Bíblico, tem que ser antes de tudo orante. Todas as informações que escrevo aqui são importantes apenas como base, mas a reflexão de cada um, com a interpretação baseada na oração, de como funcionava as primeiras comunidades, tem um valor ainda maior. Qual é o nosso papel como agentes e membros da comunidade de fé? Não é ditar regras ou modos de agir, mas sim auxiliar no crescimento pessoal de cada irmã e irmão, acolher e saber entender os desígnios de Deus.

Imagine quanto de surpresa houve entre a comunidade ao se depararem com alguém cujo o propósito sempre foi acabar com os cristãos, e essa pessoa ter sido mudada radicalmente pelo amor de Deus. Pense como foi difícil isso não só para a comunidade, mas também para o próprio Paulo. E ainda mais como foi aceitar que uma pessoa não fiel (caso do centurião Cornélio) adentrasse a comunidade acreditando em Jesus.

Vale avaliar se estamos dando espaço para as novas pessoas nas nossas comunidades e igrejas. O “nossa comunidade” dá a se entender que é de todos e não “minha apenas”. Será que damos espaço para quem chega se sentir acolhido, a vontade para participar ativamente da liturgia da igreja, ler, cantar e mais ainda celebrar. Ou resistimos?

Jesus acolheu a todos sem distinção e esta é a máxima. Nos Atos vemos as dificuldades da comunidade e isso deve servir para sermos ainda mais acolhedores.

Milton Cesar

Um homem chamado Paulo

 

Pintura mais antiga do rosto de Paulo, encontrada nas catacumbas romanas

Pintura mais antiga conhecida sobre São Paulo (Século IV)

Eram os primeiros anos da Igreja. Saulo, judeu da tribo de Benjamin, nascido em Tarso na Cilícia, foi fulgurado pelo encontro com o Cristo. Saulo é fariseu, mas goza de todos os direitos de cidadão romano. Educado em Jerusalém por Gamaliel, inimigo declarado de Jesus Cristo, é um dos perseguidores do diácono Estevão. Depois da morte de Estevão, participa com fúria tenaz da perseguição insurgida pelos judeus contra a Igreja de Jerusalém. Retira os cristãos e os faz aprisionar. Ele mesmo pede ao sumo sacerdote que lhe dê cartas de apresentação para as sinagogas de Damasco para conduzir prisioneiros a Jerusalém os cristãos daquela cidade.

Enquanto se encontrava na estrada de Damasco para iniciar a sua empreitada, uma luz fulgurante o derruba por terra e uma voz o interroga: “Saulo, Saulo, por que me persegues?” Saulo derrubado, chega cego à cidade. Ananias, avisado por revelação divina sobre o acontecimento, o batizará. Paulo começa nas sinagogas a anunciar a ouvintes estupefatos que Jesus é o Filho de Deus, conforme a narração no livro dos Atos dos Apóstolos 9,1-22.

“Quem és, Senhor?”, havia perguntado Saulo à voz que o tinha derrubado do cavalo. “Eu sou Jesus que tu persegues”. A evidência da fulguração transformou o perseguidor dos cristãos: “Senhor, que queres que eu faça?” Do ódio ao amor o passo é breve, Jesus de Nazaré se mostra o Cristo e abate o orgulho do homem, fazendo-o instrumento escolhido para levar o seu nome aos gentios. O preço é um só: “Mostrar-te-ei quanto deverás sofrer por meu nome”. Mas absorvido no mistério de Cristo morto e ressuscitado, Paulo não verá mais a cruz senão como transfiguração da glória.

O episódio narrado não pode ser reduzido à experiência puramente interior: também os companheiros de Paulo o perceberam e ouviram “a voz”. Paulo recordou repetidamente o acontecimento: Jesus lhe aparecera (1Cor 15,8); tinha visto o Senhor (9,1), com o vulto envolvido pela glória divina (2Cor 4,6); a aparição de Damasco equivalia para ele às aparições que tiveram os apóstolos depois da ressurreição de Jesus.

Sobre o batismo de Paulo (Atos 9, 1-21), o Senhor manda Ananias, para que Paulo recupere a vista e seja batizado. Para convencer Ananias, compreensivelmente hesitante, o Senhor lhe manifesta a excepcional missão destinada a Paulo: a de ser seu mensageiro em todo o mundo, diante dos pagãos, das autoridades e dos próprios judeus.

Ele é grande modelo, seguidor de Jesus, anunciando com ardor o Evangelho.

Paulo tem plena consciência de que é servo, chamado a ser apóstolo, escolhido para o Evangelho de Deus. Com esta apresentação, começa sempre suas cartas. Ele afirmou uma vez: “Sei em quem acreditei”. Faz incansável profissão de fé em Cristo Jesus, crucificado e ressuscitado, vivo entre nós.
Neste ano Paulino, vale a pena reconhecer Paulo especialmente através de suas cartas.

São João Crisóstomo, bispo de Constantinopla, faz um retrato de Paulo e revela o traço mais sugestivo e fascinante do Apóstolo dos gentios: o seu amor a Cristo, à paixão por ele, caminho para a ressurreição e a glória: “Paulo tudo suportou por amor a Cristo. Gozar do amor de Cristo era a sua vida, o seu mundo, o seu reino, a sua promessa, tudo. O que é o homem, quão grande é a dignidade da nossa natureza e de quanta virtude é capaz a criatura humana, Paulo o demonstrou mais do que qualquer outro. É o que aprendemos de suas próprias palavras: ‘Esquecendo o que fica para trás, eu me lanço para o que está na frente’. As fraquezas, as injúrias, as necessidades, as perseguições são as armas da justiça, mostrando que delas lhe vinha grande proveito.”

A aparição no caminho de Damasco muda, em um segundo, todo o modo de pensar e de agir de Saulo, até então ardente inimigo da cruz. Nesse encontro excepcional com o Senhor, Saulo vê que o messias dos cristãos está verdadeiramente ressuscitado e glorificado, que Deus Pai aprovou a sua obra, e tudo o que Jesus disse e fez, é o cumprimento das profecias, enquanto as autoridades de seu povo erraram na interpretação das Escrituras.
Paulo descobre a “loucura” de cruz: verdade e sabedoria, porque envolve Deus mesmo e é, com a ressurreição do Senhor, a última palavra da revelação divina aos homens. (fonte Formação Canção Nova)

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Saulo é o nome hebraico usado até o capitulo 13 dos Atos. Paulo é o  nome romano que servirá para que ele circule livremente por toda a Palestina e Judéia, lembrando que sua família comprou a cidadania romana, o que era comum entre os abastados da época. A mudança de nome ocorre no capitulo 13, e simboliza uma nova vida e o apostolado entre os cristãos. Pedro também mudara o nome. Nos Atos, Saulo é citado 12 vezes como perseguidor dos cristãos, talvez Lucas tenha tido a intenção de fazer um paralelo :12 tribos de Israel, 12 discípulos de Jesus, 12 perseguições antes da conversão.

Saulo é um judeu autêntico, que sempre defendeu com ardor os mandamentos da Torá. Sabemos que a maioria das religiões são focadas nas suas tradições, e que ensinam seus filhos os valores de cada preceito. Algo louvável, que precisa ser feito, ante o ataque de outros meios de comunicação que tem ensinado valores deturpados para os jovens e crianças, e até alguns adultos, pregando a concorrência desleal, e a busca de um lucro em decorrência da desgraça do outro.

Saulo, assim como os judeus da época (talvez até hoje), esperava um rei messiânico, um messias grandioso que livraria a nação judaica do domínio romano, e não um messias que pregaria a paz e o amor ao próximo, e depois morreria de forma humilhante na cruz. É fácil notar que Judas Iscariotes também  pensava assim, e por isso mesmo entregou Jesus, na esperança de que os seguidores dele se revoltassem e libertassem o mestre.

Vale dizer que na edição 2110 de 8/7/2009 da Revista Veja, foi publicada uma reportagem que dizia :O Vaticano acredita ter encontrado, na segunda maior Basílica de Roma, os restos mortais do apóstolo Paulo, martirizado no século I. (leia a reportagem na integra no box final deste post)

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Como base de estudo foi usado:

 

Em 2018 foi lançado o filme Paulo, Apóstolo de Cristo que passou quase despercebido por muitos nos cinemas e conta a história dos últimos dias de Paulo já preso e condenado que recebe as visitas de Lucas.

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Para baixar: Paulo, Apóstolo de Cristo – Dual Audio 720P MKV – Torrent

O Vaticano acredita ter encontrado, na segunda maior basílica de Roma, os restos mortais do apóstolo Paulo, martirizado no século I

Bento XVI anunciou no domingo 28 uma descoberta que lança luz sobre os primeiros anos da Igreja Católica. Amostras retiradas da ossada existente numa tumba no subsolo da segunda maior basílica de Roma foram submetidas a testes de datação, e as conclusões são de que se trata dos restos de uma pessoa que viveu entre os séculos I e II. Elas “parecem confirmar a unânime e incontestável tradição de que são os restos mortais do apóstolo Paulo”, festejou o papa. A relevância da descoberta não está em fornecer evidências materiais sobre o homem que expandiu o cristianismo para além das fronteiras estreitas de uma seita judaica da periferia do Império Romano. Não há necessidade disso. A vida e a obra do Apóstolo dos Gentios são as mais bem documentadas entre os primeiros santos do cristianismo. O valor religioso do exame científico está em atestar a consistência da tradição católica e reforçar a Basílica de São Paulo Fora dos Muros como um local de veneração. No século IV, o imperador Constantino mandou erguer a igreja sobre um antigo cemitério romano, do lado externo das muralhas que protegiam a cidade dos bárbaros, exatamente porque o lugar era conhecido como o do túmulo de São Paulo.

Pintura mais antiga do rosto de Paulo, encontrada nas catacumbas romanas

Pintura do rosto de Paulo Século IV

Não foi a única novidade sobre o santo. No mesmo domingo, foi revelada a mais antiga imagem de São Paulo, um afresco do século IV encontrado durante as obras de restauração das catacumbas de Santa Tecla, a alguns quarteirões de distância da basílica. A pintura foi descoberta no teto de um pequeno aposento que esteve soterrado por séculos. A identificação do apóstolo foi imediata porque coincide com as características físicas descritas em textos dos primeiros cristãos, como a barba escura e fina na ponta, a calvície, o nariz grande e os olhos expressivos. Um afresco de São Pedro também foi encontrado, mas em muito pior estado de conservação.

Segundo a tradição, a Basílica de São Pedro, no Vaticano, foi erguida sobre o túmulo do primeiro papa. Essa crença foi posta à prova por arqueólogos que exploraram um túmulo existente no subsolo da construção. Submetido a testes de datação, o conteúdo revelou os restos de alguém que tinha entre 60 e 70 anos e viveu no século I. Em 1968, o papa Paulo VI anunciou com estardalhaço que se tratava, sem dúvida, dos restos de São Pedro. Paulo e Pedro foram contemporâneos e ambos morreram como mártires da Igreja. Acredita-se que São Pedro tenha sido crucificado (de cabeça para baixo, segundo a tradição) no ano 64, por ordem do imperador Nero. Graças à cidadania romana, São Paulo escapou da cruz, para ser decapitado em algum momento entre os anos 65 e 67. Reza a tradição que o corpo e a cabeça do santo foram sepultados em locais diferentes – a cabeça estaria na Basílica de São João de Latrão, também em Roma.

Em 2002, ainda sob João Paulo II, arqueólogos iniciaram a escavação do túmulo sob a Basílica de São Paulo, onde descobriram uma urna e uma placa com a inscrição “Paulo Apóstolo Mártir”. Eles fizeram um minúsculo furo numa das laterais de mármore e inseriram uma pequena sonda, que recolheu amostras da ossada que está lá dentro. O material extraído foi submetido ao teste de carbono 14, técnica utilizada para calcular a idade de materiais antigos. Junto aos restos mortais foram encontrados também alguns grãos de incenso e dois pedaços de tecido de linho, um de cor púrpura com bordados de ouro e outro azul – ambos identificados como peças luxuosas, o que reforça a suposição da existência de ricos entre os primeiros cristãos.

São Paulo era um judeu nascido entre os anos 4 e 8, possivelmente em Tarso, então uma grande cidade grega na rota entre a Europa e a Ásia. Seus pais eram escravos libertos, mas ricos o suficiente para mandar o filho estudar com um grande rabino em Jerusalém. Adulto, ele se tornou um perseguidor implacável da seita crist㠖 ainda que não esteja claro por que agia assim. Ele próprio deixou relatos sobre sua conversão, ocorrida no caminho para Damasco, depois de uma visão. Após se converter, Paulo dedica-se, com enorme sucesso, à tarefa de expandir a fé pelo Império Romano, especialmente por seu coração, Roma.

Ainda mais importante, foi ele quem formulou a doutrina de maneira teológica e separou o cristianismo do judaísmo. Para São Paulo, os pagãos não precisavam submeter-se aos rituais judaicos, como a circuncisão e as regras dietéticas, pois bastavam o batismo e a fé em Cristo. “Paulo deu ao cristianismo um caráter universal”, diz o teólogo Geraldo Hackmann, o único brasileiro na Comissão Teológica Internacional do Vaticano. A influência de São Paulo sobre a cristandade pode ser medida numericamente. Dos 27 livros do Novo Testamento, treze são atribuídos ao apóstolo. Desses, sete são considerados realmente autênticos, e os demais, escritos em seu nome por seguidores. Quase metade do livro dos Atos dos Apóstolos, escrito pelo evangelista Lucas, relata as viagens evangelizadoras de Paulo. As descobertas envolvendo seu túmulo reforçam sua presença na tradição cristã.

VEJA edição 2110 de 8/7/2009