Círculo Bíblico: Livro de Jó (1/10)

Círculo Bíblico: Livro de Jó

Este é o primeiro de uma série de 10 posts que tratarão de um Círculo Bíblico sobre o Livro de Jó A ideia é fazer encontros com a comunidade ou grupos interessados no estudo da Bíblia (dentro ou fora da igreja) e não uma palestra onde um fala e os outros ouvem, mas sim uma partilha numa conversa, mais como uma vivência da fé do que apenas um sermão. Para isso é importante que todos tenham nas mãos a Bíblia e caso contrário, ao menos o Livro de Jó (editoras como a Paulus tem edições mais acessíveis apenas com os livros separados da Bíblia como um todo) ou em ultimo caso um folheto impresso com os capítulos que serão lidos. De qualquer forma o ambiente é muito importante e mais ainda que sejam respeitados horários, dias e frequências com que os encontros acontecerão. Funciona muito bem se for uma vez por semana, mas a demanda dos participantes deve ser levada em consideração. Grupos com até 20 pessoas são mais interessantes do que grandes grupos, para que o trabalho seja mais próximo, mas não impede que sejam formados grupos bem maiores. É indispensável que tenha-se ao menos uma equipe (podem ser 2 ou 3 pessoas) para preparar o espaço (decoração, café ou suco ou lanche se for o caso) e tentar fazer estes encontros na igreja mas é ainda melhor se for nas casas das pessoas. Exemplo: Hoje é na casa do João, no próximo encontro o grupo vai na casa da Maria e assim por diante, assim já se cria um ambiente mais amigável e familiar abrindo a possibilidade da família acolhedora partilhar. Não posso esquecer de frisar que os encontros devem durar até 50 minutos (1 hora no máximo), encontros muito longos não são proveitosos, se tornam cansativos e desestimulam a participação no restante do círculo. Entregar um certificado no final é uma boa ideia, apenas como incentivo. 

Cronograma

  1. Oração Inicial
  2. Canto
  3. Leitura (dividir em partes para que todos que se sentirem a vontade possam ler)
  4. Junto com cada parte lida cabe a discussão sobre o que foi lido
  5. Plenária (o que cada um entendeu)
  6. Fechamento com uma oração e o abraço da paz (um canto também é interessante)

Quem foi Jó

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 ou Job (em hebraicoאִיּוֹבtransliteração.: Iyyov; em árabeأيّوب; transliteração.: Ayyūb‎) é um personagem do livro mais antigo da Bíblia, isto é, o Livro de Jó do Antigo Testamento. De acordo com a tradição, teria vivido na terra de Us, local que até hoje não foi identificado ao certo pela ausência de evidências e pelo fato de a narrativa bíblica do mesmo se apresentar mais como uma poesia épica do que um relato fatual. A característica mais conhecida do personagem Jó é a sua paciência (veja Tiago 5,11). É normal escutar a expressão “paciência de Jó”, que define uma pessoa particularmente paciente. A menção que você faz à “prudência” de Jó não é muito comum. De qualquer forma tem uma lógica: o livro de Jó é colocado entre os livros sapienciais e sabemos que a “prudência” na Bíblia está incluída na “sabedoria”. Eclesiástico 1,4 diz: Antes de todas essas coisas foi criada a Sabedoria, a prudência existe desde sempre.

O livro de Jó conta que ele era uma pessoa rica, que se destacava entre os sábios. Com o consentimento de Deus, Satanás priva Jó de sua riqueza, de seus 10 filhos e lhe tira também a saúde. As pessoas próximas a ele interpretam essas desgraças como uma punição divina pelos pecados graves que ele cometeu e por isso decidem expulsá-lo da cidade. A sua esposa também pensa assim e lhe aconselha de amaldiçoar Deus, apressando, desta maneira, o seu fim. Também os seus 3 amigos, Elifaz, Bildad e Zofar, têm a mesma opinião, mas, como luto, sentam-se ao seu lado, na miséria, durante 7 dias. Eles levantam todos os eventuais motivos que poderiam ter causado a desgraça a Jó. A discussão entre os 4 personagens evidencia a falência teologia tradicional em interpretar um destino humano fora do normal. Apesar de todo o sofrimento, Jó não se revolta contra Deus, que, no final, cura Jó, que tem outros filhos e redobra a sua riqueza.

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Satanás fere Jó (imagem Revista Super Interessante – Ed. Abril)

Jó 1 – O inicio das provações

“1.Havia, na terra de Us, um homem chamado Jó. Era homem íntegro e reto, que temia a Deus e mantinha-se afastado do mal. 2.Nasceram-lhe sete filhos e três filhas. 3.Possuía sete mil ovelhas, três mil camelos, quinhentas juntas de bois, quinhentas jumentas e uma grande quantidade de escravos. Este homem era o mais rico dentre todos os habitantes do Oriente. 4.Seus filhos tinham o costume de ir à casa uns dos outros, alternadamente, para se banquetearem, e convidavam suas três irmãs para comer e beber com eles. 5.Quando acabava a série dos dias de banquetes, Jó mandava chamar seus filhos para purificá-los e, na manhã do dia seguinte, oferecia holocaustos por intenção de cada um deles: “porque – dizia ele –, talvez meus filhos tenham pecado e amaldiçoado a Deus em seu coração”. Assim fazia Jó sempre.* 6.Um dia em que os filhos de Deus se apresentaram diante do Senhor, veio também Satanás entre eles.* 7.O Senhor disse-lhe: “De onde vens tu?”. “Andei dando voltas pelo mundo – disse Satanás – e passeando por ele”. 8.O Senhor disse-lhe: “Notaste o meu servo Jó? Não há outro igual a ele na terra. É um homem íntegro e reto, temente a Deus e se mantém longe do mal”. 9.Mas o Satanás respondeu ao Senhor: “É a troco de nada que Jó teme a Deus? 10.Não cercaste, qual uma muralha, a sua pessoa, a sua casa e todos os seus bens? Abençoaste tudo quanto ele fez e seus rebanhos cobriram toda a região. 11.Mas estende a tua mão e toca em tudo o que ele possui. Juro-te que te amaldiçoará na tua face”. 12.“Pois bem!” – respondeu o Senhor. “Tudo o que ele possui está em teu poder. Mas não estendas a tua mão contra a sua pessoa.” E o Satanás saiu da presença do Senhor. 13.Ora, um dia em que os filhos e filhas de Jó estavam à mesa e bebiam vinho em casa do irmão mais velho, 14.um mensageiro veio dizer a Jó: “Os bois lavravam e as jumentas pastavam perto deles. 15.De repente, apareceram os sabeus e roubaram tudo, passando a fio de espada seus escravos. Só eu escapei para trazer-te a notícia”. 16.Estando ele ainda a falar, veio outro e disse: “O fogo de Deus caiu do céu; queimou, consumiu as ovelhas e também os escravos. Só eu escapei para trazer-te a notícia”. 17.Ainda este falava, e eis que chegou outro e disse: “Os caldeus, divididos em três bandos, lançaram-se sobre os camelos e os levaram embora, depois de passarem a fio de espada os escravos. Só eu escapei para trazer-te a notícia!”. 18.Ainda este estava falando, e eis que entrou outro e disse: “Teus filhos e filhas estavam comendo e bebendo vinho na casa do irmão mais velho, 19.quando um furacão se levantou de repente do deserto, abalou os quatro cantos da casa e esta desabou sobre os jovens. Morreram todos. Só eu escapei para trazer-te a notícia”. 20.Jó então se levantou. Rasgou seu manto e raspou a cabeça. Depois, caindo prostrado por terra, 21.disse: “Nu saí do ventre de minha mãe, nu voltarei. O Senhor deu, o Senhor tirou: bendito seja o nome do Senhor!”.* 22.Em tudo isso, Jó não cometeu pecado algum, nem proferiu contra Deus blasfêmia alguma.”

A ideia de que Deus deixaria que Satanás testasse a fé de uma pessoa abençoada como Jó parece absurda, mas não é. Jó tinha tudo, e apesar disto era fiel a Deus sem nunca blasfemar, mas será que este ter tudo não era o motivo dele não ter nenhuma preocupação e poderia ser até mais fácil render graças a Deus por isso? Se pensarmos que na nossa vida muitas dificuldades fazem até a nossa fé vacilar, é de se imaginar que se Jó tivesse muitas provações ele pudesse ter dúvidas quanto ao amor de Deus. Claro que essas provações impostas por Satanás foram extremas e Jó não blasfemou. O que fica é tentarmos nos colocar na pele de Jó.

Jó 2 – Segunda série de provações

“1.Ora, um dia em que os filhos de Deus se apresentaram diante do Senhor, Satanás apareceu também no meio deles na presença do Senhor. 2.O Senhor disse-lhe: “De onde vens tu?”. “Andei dando volta pelo mundo – respondeu Satanás – e passeando por ele”. 3.O Senhor disse-lhe: “Notaste o meu servo Jó? Não há ninguém igual a ele na terra! É um homem íntegro e reto, temente a Deus e se mantém longe do mal. Ele persevera sempre em sua integridade e foi em vão que me incitaste a perdê-lo”. 4.“Pele por pele!” – respondeu Satanás –. “O homem dá tudo o que possui para salvar a própria vida. 5.Mas estende a tua mão e toca-lhe nos ossos e na carne. Juro que te renegará em tua face.” 6.O Senhor disse a Satanás: “Pois bem! Ele está em teu poder, poupa-lhe apenas a vida”. 7.O Satanás retirou-se da presença do Senhor e feriu Jó com uma úlcera maligna, desde a planta dos pés até o alto da cabeça. 8.E Jó pegou um caco de telha para se coçar, e assentou-se sobre um monte de cinzas. 9.Sua mulher disse-lhe: “Persistes ainda em tua integridade? Amaldiçoa a Deus e morre!”. 10.“Falas – respondeu-lhe ele – como uma insensata. Se aceitamos de Deus a felicidade, não deveríamos também aceitar a infelicidade?” Em tudo isso, Jó não pecou por palavras. 11.Três amigos de Jó – Elifaz de Temã, Baldad de Suás e Sofar de Naamat – souberam de todo o mal que lhe tinha sucedido, vieram cada um de sua terra e combinaram ir juntos exprimir sua simpatia e suas consolações. 12.Quando o avistaram de longe, não o reconheceram. Puseram-se então a chorar, rasgaram as vestes e lançaram para o céu poeira, que recaía sobre suas cabeças. 13.Ficaram sentados no chão ao lado dele durante sete dias e sete noites, sem que nenhum lhe dirigisse uma palavra, tão grande era a dor em que o viam mergulhado.” 

Mais uma vez a imagem parece absurda de Deus conversando com Satanás a cerca de Jó e aceitando que Satanás fizesse uma provação ainda maior contra o servo de Deus, porém é mais uma confiança do Senhor em Jó . Mas a provação imposta a ele é uma úlcera (feridas que se abriram no corpo todo até na planta dos pés) que tinha que ser coçada com cacos de telhas. Imagina o nível de incomodo e dor que passou Jó. A própria esposa sentiu a fé abalada neste momento, porém 3 dos seus verdadeiros amigos vieram em seu socorro e o acompanharam durante 7 dias e 7 noites , choraram pois sentiram o quanto de sofrimento Jó passava. A nossa reflexão é saber se nos nossos momentos de angústias conseguiremos resistir ou teremos amigos de verdade que estarão ao nosso lado nos momentos de infortúnio.

Jó 3 – Jó reclama

“1.Enfim, Jó abriu a boca e amaldiçoou o dia de seu nascimento. 2.Jó falou nestes termos: 3.“Pereça o dia em que nasci e a noite em que foi dito: ‘Nasceu um menino!’. 4.Que esse dia se torne em trevas! Que Deus, lá do alto, não se incomode com ele, que a luz não brilhe sobre ele! 5.Que trevas e obscuridade se apoderem dele, que nuvens o envolvam, que eclipses o apavorem, 6.que a sombra o domine. Esse dia, que não seja contado entre os dias do ano, nem seja computado entre os meses!* 7.Que seja estéril essa noite, que nenhum grito de alegria se faça ouvir nela. 8.Que a amaldiçoem os que amaldiçoam o dia, aqueles que são hábeis para evocar Leviatã!* 9.Que as estrelas de sua madrugada se obscureçam, em vão espere a luz e não veja abrirem-se as pálpebras da aurora. 10.Pois não me fechou as portas do ventre que me carregou para me poupar a vista do mal! 11.Por que não morri ainda no seio materno, ou pereci ao sair das entranhas? 12.Por que dois joelhos me acolheram, e dois seios me amamentaram? 13.Estaria agora deitado e em paz, dormiria e teria o repouso 14.com os reis, árbitros da terra, que constroem para si mausoléus; 15.ou estaria entre os príncipes que possuíam o ouro, e enchiam de dinheiro as suas casas. 16.Ou, então, como o aborto escondido, eu não teria existido, como as crianças que não viram a luz.* 17.Ali, os ímpios cessam os seus furores, ali, repousam os exaustos de forças.* 18.Ali, os prisioneiros estão tranquilos, já não mais ouvem a voz do capataz. 19.Ali, juntos, os pequenos e os grandes se encontram, o escravo ali está livre do jugo do seu senhor. 20.Por que concede ele a luz aos infelizes e a vida àqueles cuja alma está desconsolada, 21.que esperam pela morte sem que ela venha, e a procuram mais ardentemente do que um tesouro, 22.que se alegrariam intensamente diante do sepulcro? 23.Ao homem, cujo caminho está oculto, a quem Deus cerca de todos os lados? 24.Em lugar do pão tenho o soluço, e os meus gemidos se espalham como a água. 25.Todos os meus temores se realizam, e aquilo que me dá medo vem atingir-me. 26.Não tenho paz, nem descanso, nem repouso; o que vem é agitação” 

Jó 4 – Primeiro discurso de Elifaz

“1.Elifaz de Temã tomou a palavra nestes termos: 2.“Se arriscarmos uma palavra, talvez ficarás aflito, mas quem poderá impedir-me de falar? 3.A muitos ensinaste, deste força a mãos frágeis. 4.Tuas palavras levantavam aqueles que caíam, fortificaste os joelhos vacilantes. 5.Agora que é a tua vez, enfraqueces; quando és atingido, te perturbas. 6.Não estava a tua confiança na tua piedade, e a tua esperança na integridade de tua conduta? 7.Lembra-te: Qual o inocente que pereceu? Ou quando foram destruídos os justos? 8.Tanto quanto eu saiba, os que praticam a iniquidade e os que semeiam sofrimento também os colhem. 9.Ao sopro de Deus eles perecem e são aniquilados pelo vento de seu furor. 10.Urra o leão e seu rugido é abafado, os dentes dos leõezinhos são quebrados.* 11.A fera morre porque não tinha presa e os filhotes da leoa se dispersam. 12.Uma palavra chegou a mim furtivamente, e meu ouvido percebeu o murmúrio. 13.Na confusão das visões da noite e na hora em que o sono se apodera das pessoas. 14.Surpreenderam-me o medo e o terror e sacudiram todos os meus ossos. 15.Um sopro perpassou meu rosto e fez arrepiar o pelo do meu corpo. 16.Lá estava um ser – não lhe vi o rosto – como um espectro sob meus olhos. 17.Ouvi uma frágil voz: ‘Pode o homem ser justo na presença de Deus, pode o mortal ser puro diante do seu Criador?* 18.Ele não confia nem nos seus próprios servos; até mesmo nos seus anjos encontra defeito, 19.quanto mais nos seus hóspedes em casas de barro, que têm o pó por fundamento! São esmagados como a traça.* 20.Entre a manhã e a tarde são aniquilados; sem que neles se preste atenção, morrem para sempre. 21.Não foi arrancada a estaca da tenda deles? Morrem sem terem conhecido a sabedoria’.””

Jó faz muitas reclamações sobre os sofrimentos que está passando. No capitulo 4 Elifaz, um dos seus amigos, faz um discurso questionando Jó. Estas passagens mostram como uma pessoa que é agraciada pela graça (Jó) quando se vê na provação vacila na fé a ponto de desejar a morte e não enfrentar os desígnios de Deus. Por outro lado Elifaz faz algumas perguntas que colocam Jó em saia justa. A reflexão aqui é sobre qual a nossa atitude diante das dificuldades impostas pela vida. Será que nossa fé é mais forte do que a dor do sofrimento. Vale fazer uma roda de conversa sobre isso.

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1,5. Purificá-los: por meio de abluções rituais. Amaldiçoado: o texto traz abençoado, que deve ser eufemismo ou uma correção intencional. 1,6. Satanás significa – o adversário. Traz o artigo no texto original. Ver, Zc 3,1s(“O Senhor mostrou-me o sumo sacerdote Josué, de pé diante do anjo do Senhor; Satã estava à sua direita como acusador).*” 
 1,21. Tirou: o texto latino frequentemente citado, acrescenta aqui: Como foi do agrado do Senhor, assim aconteceu.”
3,6. Nesse dia: conforme o texto siríaco. 3,8. Os que amaldiçoam: os magos. Leviatã: monstro que se representa sob a forma de crocodilo, segundo a mitologia fenícia. Este versículo deveria, logicamente, ser colocado depois do v. 12. 3,17. Ali: no cheol, morada dos mortos.”
4,10. O leão: figura do mau. 4,17. Frágil voz: outra tradução – Silêncio… Depois ouvi uma voz. 4,19. Casas de barro: o corpo humano.”

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