Evangelho Segundo São João

Animo, uma nova Catequese (Encontro 14/40 – Jesus Cristo – Complemento 9)

 

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A Boa Nova segundo João

João é considerado o autor do que se tornou o quarto evangelho no cânon oficial da Bíblia. Esta posição no livro só se lhe foi dada porque ele descreve de forma diferente dos anteriores (Mateus, Marcos e Lucas) a missão de Jesus. Além de ter convivido diretamente com o filho de Deus, ele se autodenomina como “o discípulo mais amado”, João seria hoje um teólogo e seu texto reflete isso.

João também é o autor de mais 3 epístolas (cartas de João 1, 2 e 3) e do livro da Revelação ou Apocalipse (como ficou mais conhecido).

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Mateus (Mt 4,18-22, repetido por Marcos 1,16-20 e Lucas 5,1-11) narra que Jesus chamou primeiro Pedro e André e logo depois Tiago e João para segui-lo. Já no evangelho de João (Jo 1,35-51) esse chamado tem outra ordem e deixa claro que tanto André como o próprio João eram seguidores de João Batista e quando este indicou quem realmente seria o enviado de Deus (no caso Jesus) eles seguram-no imediatamente e teriam sido então os primeiros a seguidores do Messias. Esqueceu-se até de citar seu próprio irmão Tiago no restante da narrativa.

Mas em particular esta passagem traz algo até mais significativo: são as primeiras palavras ditas por Jesus neste evangelho. É ele as tem todo um significado especial (quase como um prelúdio do que viria): O que vocês estão procurando? (Jo 1,38). Esta é a pergunta feita até hoje a todos que pretendem seguir a Jesus. Nós queremos saber quem é Jesus, onde está, onde fica e ele nos pergunta sobre o que buscamos na nossa vida.

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Fragmento do Evangelho de João

Evangelista

O livro de João não é composto de breves histórias, como nos outros evangelhos, mas sim de grandes episódios, em que se misturam narrativa, diálogo e discurso, assumindo, muitas vezes forma de teatro. Segue um esquema geográfico e cronológico peculiar, mencionando diversas viagens de Jesus a Jerusalém e três páscoas, diferente dos outros 3 evangelhos que só narram uma. (Introdução a João – Bíblia Sagrada -CNBB)

No evangelho de João encontramos apenas 7 milagres, que ele chama de sinais e alguns discursos que se desenvolvem lentamente repetindo sempre os mesmos temas-chave. Seu evangelho é uma espécie de meditação, que procura aprofundar e mostrar o conteúdo da catequese existente em sua comunidade. Seu evangelho visa a despertar e a alimentar a fé em Jesus Cristo o filho de Deus, a fim de que os homens tenham a vida. (Jo 20,30-31). (Introdução ao Evangelho Segundo São João – Bíblia Sagrada – Paulus)

É o único dos evangelhos em que Jesus é Deus e homem ao mesmo tempo.

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Em Patmos escrevendo o Apocalipse

Existe também alguns fatos em que o texto de João chega a contradizer o texto dos demais evangelistas. Além de João citar a celebração de três páscoas, algo que condiz com a possibilidade de que Jesus fez sua pregação em três anos. Os evangelhos sinóticos dizem que a última ceia ocorreu numa quinta-feira, o de João antecipa a data em um dia e com isso faz com que a morte de Jesus coincida com a hora em que se sacrificavam o cordeiro como oferenda no Templo de Jerusalém durante a páscoa judaica. Apesar de morrer na Cruz o Salvador aparece como vitorioso.

O evangelho de João é por excelência o texto que nos fala da divindade de Jesus. É como ele teria o poder de nos salvar.

quadro cronológico do evangelho segundo joão

Quadro cronológico

Prólogo 1,1-8
I. O ministério público de Jesus 1,19-12,50

Preparação 1,19-51
As bodas em Caná 2,1-12
Ministério em Jerusalém 2,13-3,36
Jesus e a mulher de Samaria 4,1-42
A cura do filho de um oficial do rei 4,43-54
A cura de um paralítico em Betsaida 5,1-15
Honrando o Pai e o Filho 5,16-29
Testemunhas do Filho 5,30-47
Ministério na Galiléia 6,1-71
Conflito em Jerusalém 7,1-9,41
Jesus, o bom Pastor 10,1-42
Ministério em Betânia 11,1-12,11
Entrada triunfal em Jerusalém 12,12-19
Rejeição final: descrença 12,20-50

II. O ministério de Jesus aos discípulos 13,1-17,26

Servir— um modelo 13,1-20
Pronunciamento de traição e negação 13,21-38
Preparação para a partida de Jesus 14,1-31
Produtividade por submissão 15,1-17
Lidando com rejeição 15,18-16,4
Compreendendo a partida de Jesus 16,5-33
A oração de Jesus por seus discípulos 17,1-26

III. Paixão e ressurreição de Jesus 18,1-21,23

A prisão de Jesus 18,1-14
Julgamento perante o sumo sacerdote 18,15-27
Julgamento perante Pilatos 18,28-19,16
Crucificação e sepultamento 19,17-42
Ressurreição e aparições 20,1-21,23

Epílogo 21,24-25

 

Um homem chamado João

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João era um dos filhos de Zebedeu e Salomé, junto com seu irmão Tiago (Maior) eles eram pescadores. Ele era responsável pelo conserto das redes de pesca também. Morava em Betsaida com os pais João também gostava de ouvir a pregação de João Batista e provavelmente foi um dos muitos batizados pelo profeta. Tanto por terem a mesma profissão, como por viverem na mesma região João e seu irmão já conheciam Pedro e André e este último também fora um seguidor do Batista.

Na Bíblia não existe nenhuma citação sobre a constituição de uma família pelo apóstolo ou seja provavelmente ele nunca se casou.

Tanto João como Tiago ganharam o apelido de Filhos do Trovão ou irmãos Boanerges (literalmente irmãos do trovão) provavelmente por falarem alto e serem muito agitados. O temperamento de ambos seria mais esquentados e alguns episódios falam sobre isso (cf. Mc 9,38; 10,35-40 e Lc 9,51-56) e Jesus acaba dando alguns puxões de orelha neles. Isso depõe contra algumas descrições que dão relatos de que o apóstolo seria muito amoroso e tranquilo. Ele era bem explosivo inclusive na defesa da sua fé.

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A teoria de que João seria um dos discípulos mais jovens de Jesus vem de vários pontos mas se evidência principalmente no capítulo 20,1-10 quando a narrativa da descoberta por Maria Madalena (ele não cita outras mulheres acompanhando ela como nos evangelhos sinóticos) do túmulo vazio de Jesus. João narra que ele é Pedro saíram correndo quando Maria avisa que o sepulcro está vazio (note que ele fala de Pedro e o discípulo que Jesus mais amava, ou seja ele João, já que é a denominação assumida por ele), mas ele chega primeiro (o que demonstra que ele tinha mais fôlego, por ser mais jovem) só que ao chegar ele não entrou e esperou por Pedro e só depois deste ter entrado é que João entra. Isso não foi por medo e sim pelo respeito aos mais velhos (eles deveriam tomar a frente) e também respeito pela posição de liderança exercida por Pedro. Um discípulo mais velho, teria entrado ou não teria conseguido chegar antes. Por ele ser o mais jovem recebia grande atenção do Mestre pois tinha muitas perguntas a fazer.

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Com tudo isso João foi diversas vezes citado nos outros evangelhos, em especial no de Marcos que parece gostar mais ainda das ações dele. João esteve sempre presente em momentos importantes da vida de Jesus, um destes fatos é que somente ele, Tiago e Pedro puderam testemunhar a ressurreição da filha de Jairo (Mc 5,37) e depois serão apenas os 3 a presenciarem a transfiguração de Jesus. Também presenciam a agonia do Mestre no Monte das Oliveiras antes de ser preso. É João o único discípulo a se postar próximo da Cruz junto com a Virgem Maria e Maria Madalena e é a ele entregue a missão de cuidar da mãe do Cristo.

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Maria Madalena, Maria mãe de Jesus e João

 

Após a ressurreição e ascensão de Jesus, Lucas narra os passos de João junto de Pedro pregando por toda a Judéia. É de como o discípulo teve destaque de liderança e autoridade também. Paulo narra um encontro com João em sua terceira visita a Jerusalém (após ter sido convertido) na epístola aos Gálatas (que também é o último registro dos passos do apóstolo fora seus próprios escritos)

Estudiosos especulam que João permaneceu em Jerusalém durante a Guerra Judaica até a destruição do templo pelos romanos (70 d.C. durante a chamada Primeira Guerra judaico-Romana), depois teria se mudado para Éfeso e já com uma idade avançada teria sido preso pelo imperador Domiciano e exilado na Ilha de Patmos e lá teria escrito o livro do Apocalipse (está última parte é praticamente um consenso).

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O escritor cristão Tertuliano de Cartago (155 d.C. A 220 d,C,) escreve que o imperador romano Domiciano (51-96 d.C.) prendeu o apóstolo João na Ásia durante a sua perseguição aos nazarenos (futuramente chamados como cristãos) e levou-o a Roma onde ele foi jogado em óleo fervente mas saiu ileso.

Outros historiadores (na versão mais aceita) dizem que após a prisão e depois de um tempo em Roma o apóstolo foi isolado na Ilha de Patmos, na Grécia que servia também de prisão. Porém João teria sido deixado em uma gruta onde ele usava uma pedra como travesseiro e teria escrito o livro do Apocalipse. Segundo uma lenda todo o texto foi escrito seguindo as revelações de Deus dadas por uma fenda no teto da caverna. Muitos visitam todo ano o local e conseguem ver até a pedra usada como travesseiro e a fenda no teto. Esta fenda se divide em três e foi relacionada posteriormente à Santíssima Trindade.

Tudo indica que tenha morrido de morte natural com 94 anos em Éfeso.  Porém não existe uma explicação de como chegou até lá.

Uma das maiores controvérsias de todos os tempos

Pedro recebendo a missão de apascentar as ovelhas de Jesus percebe que o jovem João está presente e pergunta o que será dele e o Mestre deixa no ar que João não iria (ou irá) morrer até que Ele volte (Parusia seria o termo correto e tema de um futuro post). Trocando em miúdos Jesus anuncia que João não vai morrer. (Jo 21,18-25). Se for feita uma interligação com o que escreve Mateus no capítulo 16,28 onde Jesus anuncia que entre os que estavam ali (presentes no momento) existia os que não passariam pela morte até que vissem vir o Filho do Homem no seu reino. Fica extremamente intrigado com todas estas declarações. Por um lado a nossa racionalidade não consegue aceitar que alguém possa estar vivo a mais de 2000 anos, por outro lado como duvidar do poder de Deus em se tratando de fé? Acreditamos que Jesus fez milagres, curas, ressurreições e ele próprio ressuscitou e se elevou de corpo e alma para o céu, então seria um contrassenso não acreditarmos que Jesus possa ter dado a João a possibilidade de permanecer vivo até quando o Mestre retornar.

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Fato ainda mais controverso são os escritos de Policrates de Éfeso, um Bispo que viveu em 190 d.C. e também complementados por Eusébio de Cesaréia em História Eclesiástica 5,24 que falam sobre a morte de João, mas frisar que após o falecimento e sepultamento do apóstolo, alguns anos depois o imperador romano Constantino (convertido ao cristianismo) decidiu erigir uma igreja para João e ao abrir sua tumba para o translado do corpo está estava vazia. Detalhe os selos não haveriam sido removidos até aquele momento. Fica o mistério e a controvérsia.

 Curiosidade

 Jo 21, 20 fala da posição que João se sentou a mesa na última ceia e serviu de base para a pintura de Michelangelo  

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Detalhe de uma das muitas versões do quadro

Liturgia

  • João : Símbolo: Águia. Era o maior teólogo entre todos e seu evangelho fala sempre da Divindade e dos mistérios do altíssimo, do Filho de Deus que veio dos céus. Inicia dizendo que no princípio era o verbo e o verbo estava junto de Deus. Como a águia é o animal que voa mais alto ficou como símbolo dele. Jo 1,1-5
  • Evangelho de São João é reservado para as ocasiões especiais, principalmente as grandes Festas e Solenidades, para este evangelho não existe um ano litúrgico.
  • Festa 27 de Dezembro

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